O que torna o domingo um dia estranho?

O dia que parece não acontecer chamado domingo.





Hoje é domingo, e sinto sempre uma estranheza, uma sensação de deslocamento, e até em alguns casos melancólico, hoje isso é bem mais ameno, mas lembro que na adolescência, os fins de tarde dos domingos, me deixava bem deprimido. 

Talvez por ter consciência que ao iniciar a semana, voltaria para o colégio e em alguns momentos da minha vida a escola foi um período bem conturbado. 

Mas aqui queria falar justamente sobre a estranheza do domingo, e como talvez ele se conecte muito com algo que nos é familiar, (a percepção do fim e a fuga da rotina.). E como isso talvez seja interessante para se entender ou utilizar a melancolia Obs: Não necessariamente a tristeza nas suas histórias. 
Os domingos são a percepção do fim de um ciclo, mesmo que seja semanal e ironicamente mesmo que o domingo, seja o primeiro dia da semana. Percebemos que a nova semana vai começar, principalmente os fins de tarde, por ser aquele momento em que alguém longe escuta alguma música, que não conseguimos identificar muito bem a letra, somente escutamos as batidas. Um forró, piseiro, ou samba, não importa, mas um sentimento universal ele causa, uma melancolia. 
Enquanto o sol se põe, junto ao som da rua, às vezes o barulho de um carro solitário. De um motorista perdido, tentando encontrar o caminho para casa.

E para gerar essa estranheza temos a TV. Hoje não tanto, com a internet, a programação personalizada e padronizada por cada usuário se mantém relativamente comum. Mas na época da TV, era bem diferente, o Domingão do faustão, que tanto me causava depressão, com seus convidados, e piadas, e dançarinas, nos anos noventa os programas sensacionalistas. O saudoso Silvio Santos, encerrando a noite e se conseguisse ficar acordado o domingo maior no canal globo. 

Algo que foge o padrão, mas que causa um relaxamento, um meio fique largado no sofá, hoje não precisa se arrumar muito, pode acordar mais tarde, mas quando acordamos mais tarde no domingo, sentimos a sensação de ter perdido o dia. Ironicamente o descansar, parece um desperdício do tempo que vai passar. 

E dependendo da família e de sua condição financeira, talvez seja um dia para ir para praia, ou comprar uma coca cola, ou pizza. As galeterias ficam mais cheias, de pessoas com preguiça do hercúleo trabalho de cozinhar. E em alguns casos para diminuir o sossego, visita daqueles parentes, distantes, tios, primos, que muitas vezes não queremos ver, principalmente no sagrado domingo. 

Domingo é um dia curioso, pois como falei acima é o início da semana, é o aviso que tudo se inicia, mas parece sempre o fim, diferente do sábado, que para maioria das pessoas, é uma promessa de começo. 
O fim de noite, por alguma estranha e mágica razão, vamos dormir cansados. Apesar de tudo isso que disse, não odeio o domingo, pelo contrário gosto muito do domingo, gosto do que ele representa, gosto do ritual de fim e começo que paradoxalmente ele é o deus Jano. Uma cabeça virada para o início, assim que você desperta pela manhã, seja pelo barulho na cozinha, ou som de carros, passando na rua, ou os passarinhos cantando. E uma voltada para o futuro, para escutar aquela misteriosa música de fim de tarde em alguma casa distante, para olhar para o céu que vai ficando vermelho como bandeira de um toureiro até se tornar escuro. Para o barulho dos morcegos voando entre os prédios ou o discreto som de grilo. Para os programas de auditório saturados, e o fantástico com alguma notícia. 

O domingo é um dia maravilhoso, e hoje que escrevo essa crônica é um domingo, talvez daqui a pouco a música do início/fim de semana comece a tocar.

02 de fevereiro de 2025








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